Brincar de ser empresário. Não, não é isso o que se faz em uma empresa júnior. Ninguém ali está de brincadeira, e esse tipo de corporação tampouco é uma simulação da empresa convencional. É uma empresa de verdade, só que com alunos de perfil empreendedor ocupando os variados cargos hierárquicos de uma companhia, orientados por professores que assinam projetos de verdade, dando consultoria para pequenos e microempresários do mundo real. Dali, podem sair grandes projetos, que levarão estudantes a tornarem-se grandes empresários em grandes empresas. Talvez muito mais do que um estágio poderia fazer, apesar da falta de remuneração.
“O lema do movimento é deixar de ganhar hoje para poder potencializar seu pagamento futuro”, explica Rafael Martinês, diretor administrativo-financeiro da Brasil Júnior, a confederação brasileira de empresas juniores. Essa história de trabalhar seis horas por dia e não ganhar nada incomoda alguns e até os impede de entrar no movimento. Mas a maioria que entra ou já esteve lá garante que vale a pena pensar a longo prazo. “Vários ex-empresários juniores que abriram suas próprias empresas ou que foram ser diretores e presidentes de grandes empresas, por saberem o quanto a passagem por ali influenciou suas carreiras, entram em contato com empresas juniores para solicitar trabalhos e parcerias”, diz Martinês. Ele cita como exemplo a Bain & Company, uma das maiores consultorias gerenciais do mundo, cujo diretor – Igor Marchesinni – foi empresário júnior na UFBA (Universidade Federal da Bahia) quando era estudante de Engenharia Elétrica. A Bain agora oferece treinamento gratuito para empresas júniores nas áreas de liderança, empreendedorismo, trabalho em equipe, planejamento estratégico e gestão de pessoas.
Outro exemplo citado por Martinês é o secretário municipal de Educação de São Paulo, Alexandre Schneider, ex-empresário júnior da FGV. “Outra coisa que acontece muito é as empresas ficarem tão felizes com o resultado de nosso trabalho que convidam o gestor do projeto para trabalhar lá. Algo ótimo e que não nos deixa receosos da evasão, pois isso geralmente acontece com o pessoal veterano, que já estava prestes a se formar e sair da empresa mesmo”, conta Rafael.
Mas, para que uma empresa júnior seja bem-sucedida e tenha longevidade, há alguns pré-requisitos básicos: selecionar alunos com perfil empreendedor, haver suporte da universidade com relação à infra-estrutura física da empresa, empenho na divulgação e capacitação de novos membros, ter um público-alvo bem definido (detectar bem o nicho do mercado onde você pode atuar e quem seriam seus potenciais clientes). Por exemplo: que tipo de consultoria poderia oferecer uma empresa júnior de teologia? Ou de medicina, por exemplo? Essas estão mais fadadas ao fracasso.
“Em geral, pouquíssimas são desativadas, no máximo passam por um declínio por falta de interesse de alguma turma de alunos, e depois voltam a funcionar. É que a gente praticamente não tem custos fixos. Então, dificilmente há problema de caixa”, explica Martinês.
Há pouco tempo, porém, aconteceu um caso. A Aladen, empresa júnior do curso de Enfermagem da UnB (Universidade de Brasília), foi fechada em 2006, após cinco anos de atuação. “O maior problema foi a falta de apoio da UnB, que não dá incentivo nenhum para a abertura de novas empresas juniores pois não nos proporciona a infra-estrutura necessária, além da falta de divulgação e capacitação de gente nova. A turma que criou a empresa júnior acabou se fechando na panelinha e aí, quando nos formamos, não tínhamos substitutos. Além disso, as novas gerações parecem estar interessadas em algo mais palpável financeiramente”, explica Elissandro Noronha, 27 anos, ex-membro da empresa júnior. Logo que se formou, ele conseguiu uma vaga de coordenador em uma escola de ensino básico e técnico em Sobradinho (DF). Atuamente, é professor de enfermagem na filial da Unip (Universidade Paulista), em Brasília, e está prestes a montar seu próprio negócio, uma escola técnica de enfermagem preparatória para concursos públicos – provas do quanto aprendeu com a experiência como empresário júnior.
“Passei por todas as áreas de uma empresa. Entrei quando ainda era calouro, primeiro na secretaria de divulgação e marketing, e cheguei a ser presidente”, lembra. Uma pena, porque, durante seus poucos anos de vida, a Aladen fez projetos bacanas, como a orientação e educação em saúde dentro das comunidades carentes do DF. Além disso, para Elissandro, a empresa júnior abria uma oportunidade rara no mercado: a possibilidade de um enfermeiro montar uma clínica, coisa que não se vê por aí. “A maioria das clínicas é montada por médicos”, diz Elissandro.
Ao contrário da Aladen, a Fluxo Consultoria já dura 14 anos e integra todas as faculdades de Engenharia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Recentemente, fez um projeto grandioso para a Infraero, mapeando toda a parte de iluminação e ar-condicionado do aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, para fazer o redimensionamento da energia utilizada lá. Um projeto desse custa, em média, R$ 10 mil para a empresa – menos da metade do que ela pagaria para uma consultoria convencional do mercado – valor suficiente para investir na empresa júnior.
Para Danilo Lima, há um ano membro da Fluxo, o segredo da solidez está no sentimento de pertencer por parte dos alunos, e o apoio da escola politécnica. “Nos fornecem todo o material de escritório que precisamos, e da melhor qualidade. Quando um aluno gerencia um projeto, ganha uma bolsa-auxílio que paga as horas que ele trabalhou. É uma quantia simbólica, mas já nos sentimos valorizados com isso. Também temos autonomia para contratar estagiários da própria faculdade – em geral alunos veteranos, mais velhos do que nós, prestes a se formar – para serem nossos estagiários”, diz Danilo, que entrou na empresa depois de passar por um rigoroso processo seletivo, com prova, dinâmica de grupo e entrevista. “A cada seis meses vamos a todas as salas realizar palestras sobre a empresa júnior para recrutar mais gente”, conta. A cada semestre, há cerca de 120 inscritos entre os 3500 alunos das engenharias.
Júnior x Sênior
Mas qual é a vantagem de entrar para uma empresa júnior no lugar de estagiar numa empresa convencional, grande, onde você vai entrar em contato com empresários de verdade? Para Danilo, uma das vantagens é que numa empresa comum o estudante não tem oportunidade de vivenciar o papel de “gestor”, nem de dar idéias abertamente. “Um estagiário só segue ordens”, diz.
Arthur Pinho, 22 anos, estudante da PUC-RJ e ex-membro da empresa júnior da PUC-RJ, está tendo a oportunidade de comparar na prática as duas experiências. Atualmente, estagia na Shell, depois de passar por um longo e rigoroso processo seletivo. Atribui o fato de ter sido selecionado à experiência na empresa júnior, onde aprendeu a ter uma postura mais pró-ativa e profissional. “Na empresa jr., eu lidava com gente bem mais velha, com 20 anos de experiência no mercado corporativo, além de ter que dar palestra; tudo isso nos deixa mais desenvoltos”, justifica.
Para o presidente da Brasil Júnior, o grande diferencial de estagiar numa grande empresa é o risco de ela ir à falência, o que leva a um pressão maior sob os funcionários. “Numa empresa júnior não há pressão de acionistas, nem tanta competitividade. Mas é claro que os alunos sofrem pressão dos professores e dos próprios pares – ninguém quer ter no currículo que fez parte de uma empresa jr. fraca”, afirma. Além disso, ele cita como vantagem da empresa jr. o fato do estudante poder ter contato direto com o diretor da empresa, coisa rara no mercado. “Afora isso, reproduzimos o ambiente empresarial: temos organização, hierarquia bem definida, processos, acompanhamento de resultado”, explica.
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Fonte: Via6